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1/19/26

O Agente Secreto é uma aula de cinema


    
    Curiosamente, O Agente Secreto não é sobre um agente secreto propriamente dito; é sobre um fugitivo. Marcelo, um professor universitário, interpretado por Wagner Moura, retorna ao Recife após uma tragédia rodeada de mistério. 
    De quem ele está fugindo exatamente, e por quê? Ele tenta se reaproximar do filho, Fernando, que vive com o avô. O ano é 1977, os militares estão no poder. Descobrimos lentamente que Marcelo está jurado de morte, não pode sair do país e entrou na mira da Ditadura. 
    Só a cena de abertura já daria um curta-metragem com enquadramentos dignos de uma faculdade de audiovisual. Marcelo estaciona seu fusca para abastecer em um posto de combustível remoto. Há um cadáver apodrecendo no local. Faz tempo que já está ali, diz o frentista. Ironicamente, quando a polícia chega, estão mais preocupados em achar drogas ou irregularidades no carro de Marcelo do que retirar o cadáver. 
    Wagner Moura encontra refúgio em uma casa de dissidentes, incluindo um casal de refugiados angolanos. A anfitriã é a carismática Dona Sebastiana, vivida por Tânia Maria, que rouba a cena em diversos momentos com sua naturalidade. Apesar de momentos leves, O Agente Secreto aborda traumas. 
    O trauma histórico, cultivado durante 21 anos de Ditadura Militar no Brasil. O trauma geracional, com os mais de 434 mortos e desaparecidos durante o período. E o trauma coletivo, esse silêncio perturbador de nossa existência; a amnésia de um povo que muitas vezes não se enxerga na tela. 
    Como reforçou Wagner Moura após vencer o prêmio de Melhor Ator no Globo de Ouro, a essência de O Agente Secreto é a memória; ou, em alguns casos, a falta dela. Muita coisa ainda está no ar sobre esse período sombrio do Brasil. Muita relativização por parte de alguns setores da sociedade, poucas discussões reais. Do ponto de vista técnico, a obra homenageia a memória do cinema. 
    O diretor, Kleber Mendonça Filho, fez questão de usar Câmeras Panavision e lentes anamórficas originais da década de 1970, com granulado antigo na imagem. As principais cenas foram filmadas em película 35mm, algo cada vez mais raro nos dias de hoje, seja pelo custo, ou pela escassez de laboratórios de revelação. 
    Indo mais a fundo nos tributos, o sogro de Marcelo é um projetista no icônico Cinema São Luiz, no Recife. Há todo um teor de metalinguagem nesta experiência de se entrar no cinema dentro do próprio filme. Há espaço de sobra para diálogos inteligentes e tiroteios com um sabor de Quentin Tarantino. O esquadrão da morte retratado na trama rende cenas inusitadas, com um delegado caricato. Ou, quem sabe o estilo não caminha para os faroestes espaguete de Sergio Leone? Ouso dizer que há um flerte com a narrativa de Alfred Hitchcock, que preferia apenar deixar implícito do que mostrar tudo de graça.
    Kleber Mendonça Filho quer que o espectador fique de olho para encontrar os sentidos. No vespeiro das redes sociais, notícias falsas sobre o financiamento da obra brotaram de todo canto. Segundo relatos, foi sustentada pela Lei Rouanet, o que é mentira. Por ser um longa-metragem, O Agente Secreto não pode usar A Lei Rouanet, destinada a curtas e médias. Os produtores buscaram apoio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), fundo público gerido pela Ancine (Agência Nacional do Cinema). Além disso, grande parte do dinheiro veio de coproduções internacionais, com fundos privados e parcerias da França, Alemanha e Holanda. 
    Como sempre, houve críticas ao viés político do filme, acusado de “ser esquerdista”. Aparentemente, uma obra desse tipo não merecia um prêmio no Festival de Cannes, nem duas estatuetas no Globo de Ouro. Ora, e o clássico do cinema estadunidense “Sem Destino” (1969), sobre dois motoqueiros cabeludos rodando os Estados Unidos contra tudo e contra todos? Drogas, liberdade e rock n’ roll. Na época, foi indicado a dois Oscars e ainda ganhou um prêmio em Cannes. Quer um filme com mais contracultura que esse? Influenciou gerações, então não deveríamos assisti-lo? 
    E que tal Rocky, um Lutador (1976), que tanto passou na sessão da tarde? E se eu te falasse que, no auge de Muhammad Ali, o imbatível boxeador preto, Sylvester Stallone preferiu colocar um protagonista branco para seu roteiro do American Dream? Um boxeador como Ali não teria a mesma identificação junto aos conservadores, por isso Rocky tinha que lutar contra o campeão. Críticos argumentaram que foi uma decisão política, não apenas artística. Enfim, estas últimas perguntas deixo para o leitor. Não tenho todas as respostas. 
    O Agente Secreto merece ser visto, sim. E se merece! É uma aula de cinema. Tanto para os leigos, que podem deixar passar alguns detalhes, quanto para os apreciadores da Sétima Arte, que ainda querem acreditar no Brasil como uma potência. 

Nota: Excelente

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